Ouro de alianças roubadas em SP era derretido poucas horas depois dos crimes



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Investigações do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), da Polícia Civil, apontam que o ouro de alianças roubadas em São Paulo é derretido em poucas horas, num ciclo que envolve vários criminosos, conforme apurado nas duas fases da operação Ouro Reverso, a mais recente delas realizada na segunda-feira (24).

A capital paulista tem assistido a uma recorrência de roubos de alianças. Ladrões que antes focavam em celulares voltaram a mirar os anéis, segundo os investigadores. O ouro concentra valor e é de difícil rastreio, características atrativas para o crime.

Seja roubada por homens armados em motos que atacam pedestres e motoristas parados no trânsito, seja obtida em invasões a residências, a peça é geralmente encaminhada a um receptador fixo -um contratado das lojas responsáveis pelo derretimento.

As apurações da Polícia Civil indicam que alguns receptadores têm condições de derreter peças menores, como alianças, e, na junção com cobre, confeccionar pequenas placas de ouro, num processo que dura poucas horas.

Em geral, o derretimento é feito em lojas no centro da cidade, em especial na região da rua 25 de Março e no entorno da praça da Sé, área conhecida como “círculo do fogo”. É necessária a separação de peças preciosas, como diamantes, para não desvalorizar a joia.

Do ponto do crime até o receptador, é montado um esquema com o intuito de despistar possíveis prisões em flagrante, conforme o delegado Fernando David, titular da 3ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Fraudes Financeiras e Econômicas, do Deic.

O processo inclui notas falsas, mostradas aos policiais em caso de abordagem.
“Eles utilizam envelopes, que são usualmente feitos com símbolo das joalherias e conhecidos por transportarem joias para conserto no centro. Assim, eles conseguem transitar sem nota fiscal ou qualquer documento sem levantar suspeitas da polícia e outros órgãos de fiscalização”, explica o delegado.

Fernando David afirma que se trata de um ciclo profissional e veloz para descaracterizar as alianças roubadas, o que dificulta a identificação das vítimas quando as peças são apreendidas em lojas.

“Algumas joalherias têm utilizado métodos de financiamento de receptadores para receber joias roubadas, sobretudo alianças, por 50% do valor do grama do ouro, realizando verdadeiro câmbio paralelo e estimulando, dentro de ciclo criminoso, roubos de alianças e até latrocínios.”

Operações do Deic resultaram na apreensão de peças refeitas, nas quais foi identificada uma densidade menor de ouro. Fernando David diz ser necessária uma conscientização pública para evitar o tipo de compra que acontece no centro de São Paulo e que alimenta o crime.

A força-tarefa com a Receita Federal e a Caixa Econômica Federal nesta semana resultou em 11 inscrições estaduais suspensas, segundo o delegado. “Importante porque asfixia de forma financeira. Eles não podem emitir nota fiscal. Não podem circular mercadoria. É relevante.”

Na segunda-feira, a operação cumpriu 28 mandados de busca e apreensão e outros quatro de prisão. A Justiça também bloqueou R$ 34 milhões nas contas dos investigados.

Uma das vítimas mais recentes foi o estudante Guilherme Souza de Campos, 10, assassinado no domingo (16) durante uma tentativa de roubo. Ele estava na garupa da moto do pai, um policial civil do Deic, quando um ladrão, identificado como Gabriel Adriano Araújo, 24, os abordou.

O menino, que era torcedor do Palmeiras e tinha saído com o pai para comprar uma pipa, foi baleado por Araújo e não resistiu. O policial, que estava de folga naquele domingo, reagiu e matou o suspeito. Para os investigadores, Araújo agiu sozinho e tinha a intenção de roubar a aliança do pai de Guilherme.

Conforme a investigação, Araújo havia roubado alianças de quatro pessoas nas ruas Manoel de Sousa Azevedo e Porto de Dom Rodrigo, no Morro Grande, antes de cruzar com pai e filho na rua Padre Feliciano Domingues, na Freguesia do Ó, ambos bairros na zona norte da capital.

Com Araújo, foi encontrada uma mochila com sete alianças e aparelhos celulares.

O delegado Fernando David explica que roubos consecutivos em um curto período são comuns, com intuito de maximizar o lucro com o crime e reduzir a exposição a eventuais abordagens da polícia.

Leia Também: MP do Rio denuncia 20 pessoas por envolvimento com milícia e facção



Fonte: Notícias ao Minuto

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *