RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – João Victor Gonçalves, 24, ainda está no início de sua trajetória na TV aberta, mas já carrega uma das histórias mais delicadas da novela “Quem Ama Cuida”. Na pele de Maurício, o Mau Mau, o ator interpreta um adolescente gay que tenta compreender os próprios sentimentos enquanto enfrenta o peso do preconceito dentro da própria casa.
Longe dos estereótipos, o personagem vive um processo gradual de autodescoberta. “O Mau Mau está nesse processo. Ele não sabe exatamente o que sente, ele não sabe se o que sente ele pode sentir”, explica João.
Criado sob a vigilância rígida do avô, interpretado por Tony Ramos, o garoto cresce ouvindo que determinados comportamentos não são aceitáveis. “Abaixa essa asa, o que é isso?”, lhe disse outro dia Otoniel (Tony) quando ele fez movimentos mais expansivos. Ser reprimido por alguém tão próximo o leva a questionar sua identidade.
A trama tem provocado identificação imediata no público. Desde a estreia, o ator passou a receber relatos de pessoas que se enxergam na trajetória do personagem. “Quando eu vejo muita gente chegando até o meu perfil dizendo ‘nossa, me identifico muito’, ‘lembrei de quando eu era mais novo’, eu falo: cara, estou conseguindo cumprir minha missão”, afirma.
Para construir Mau Mau, João recorreu a histórias reais de pessoas próximas. Embora tenha crescido em um ambiente acolhedor, onde nunca sofreu repressão dentro de casa, ele diz ter conhecido de perto o impacto da homofobia familiar. “Muitas vezes, essa homofobia começa dentro de casa. E as pessoas sofrem caladas muito mais do que na rua”.
O ator conta que buscou referências em amigos e pessoas queridas que viveram experiências semelhantes. Entre elas, um ex-companheiro que escondia sua orientação sexual por medo da reação da família. “A possibilidade de ele falar que era gay gerava um medo absurdo de perder a família. Fazia com que não conseguisse ser ele mesmo”, relembra. É mais ou menos o que acontece com seu personagem.
Na novela, os conflitos prometem se intensificar. João adianta que Mau Mau enfrentará momentos cada vez mais difíceis na relação com o avô. “Ele vai sofrer essa agressão, que é uma agressão que acontece. Ela começa sutil e vai se tornando maior até chegar ao momento ápice de repressão”, diz.
Ao mesmo tempo, o ator acredita que a história pode cumprir um papel importante fora da ficção. Segundo ele, uma das mensagens que mais o emocionam vem de espectadores que usam a novela para iniciar conversas difíceis dentro de casa. “Muita gente fala: agora tem um personagem que eu posso mostrar para a minha família prestar atenção. Às vezes, é simplesmente um pedido de ajuda.”
A identificação com Mau Mau também passa por características pessoais. João se reconhece no espírito familiar do personagem, na vontade de proteger quem ama e no cuidado com as pessoas próximas. Já a timidez e a passividade do jovem são traços que ele não compartilha. “Eu não tenho essa vergonha. Sou cara de pau”, brinca.
A convivência com Tony Ramos tem sido um dos grandes prazeres dessa primeira experiência de João Victor Gonçalves em uma novela. Sem ter conhecido os próprios avós, o ator conta que encontrou no veterano uma espécie de referência afetiva nos bastidores.
Apesar de interpretar um avô rígido e repressor na trama, Tony se mostra acolhedor longe das câmeras. “Às vezes eu me sinto neto dele mesmo sem saber como é ser um neto. Eu estou do lado dele e penso: ‘Pô, ele está me tratando como se fosse meu avô'”.
João também faz questão de destacar o cuidado do colega durante as gravações das cenas mais difíceis. “O Tony faz esse avô carrasco de forma esplêndida e muito cuidadosa. A gente faz uma cena pesada e, quando acaba, ele já vem todo acolhedor”, conta.
O ator paulistano começou no teatro ainda criança e passou a ajudar no sustento da casa ainda na adolescência. Apesar da imagem descolada, garante que é mais caseiro do que parece. “No fundo, eu sou um grande senhor de 80 anos que quer abraçar a família, ficar sentado em casa comendo um queijinho gostoso e jogando baralho.”
Leia Também: Famosos que morreram de ataques cardíacos



