IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Dando continuidade à fase mais violenta contra civis na Guerra da Ucrânia, Moscou e Kiev trocaram ataques nesta terça-feira (17). Ao menos dez pessoas foram mortas no norte ucraniano, e a capital russa foi alvo de um dos maiores ataques com drones da guerra.
Em uma nova frente de atrito com o Ocidente, a Rússia disse que o emprego de armas britânicas pela Ucrânia em solo russo envolve Londres no conflito e exige uma resposta. Tais ameaças já foram feitas antes, mas a situação está mais aguda.
O ataque mais mortífero contra os ucranianos foi em Petchenihi, uma cidade na região setentrional de Kharkiv. Segundo o presidente Volodimir Zelenski, foi atingido “um local com um posto de correio e lojas, cercado apenas por prédios residenciais”.
“Nós definitivamente precisamos responder a esse ataque russo”, escreveu o presidente no X. Segundo o governo local, ao menos 17 pessoas foram feridas. Na véspera, outras 10 pessoas haviam sido mortas dos dois lados da fronteira, número que chegou a 19 no domingo (16).
Como a Folha de S.Paulo mostrou, essa onda de ataques contra civis é a mais intensa desde o março de 2022, o primeiro mês da invasão das forças de Vladimir Putin contra o vizinho.
Em julho, morreram em média 21,8 civis por dia, segundo dados do Acled (Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos, no acrônimo em inglês).
Mais tarde, os russos voltaram a atingir Kiev e outras regiões. Segundo a DTEK, maior empresa privada de energia, uma de suas usinas termelétricas foi gravemente danificada no começo da noite, tendo de ser desligada.
Nas frentes de batalha, onde os mortos são contados na casa de milhares, mas as estatísticas não são reveladas de lado a lado, a Rússia voltou a avançar um pouco nesta terça, segundo seu Ministério da Defesa.
O órgão anunciou a captura de mais dois vilarejos em Donetsk, no leste ucraniano: Krasnopodillia e Orikhuvatka. O primeiro fica próxima de Dobropillia, cidade que já foi objeto de ataques intensos pelos russos e linha de suprimento vital para a capital provisória da província ainda em mãos de Kiev, Kramatorsk.
Já o segundo, mais ao norte, fica a cerca de 15 km de Sloviansk, que com Kramatorsk representa o que restou do chamado “cinturão das fortalezas” de defesa ucranianas na região, que tem 85% de controle russo. Isso não significa que elas estão prestes a cair, mas indica uma pressão renovada.
Na direção oposta, Kiev lançou um dos maiores ataques da guerra contra Moscou, disparando 637 drones contra a região da capital russa. Desses, 180 foram interceptados voando diretamente a alvos na cidade, segundo o governo local.
Até aqui, não houve relatos de feridos ou de grandes danos, diferentemente do que vinha ocorrendo. Novamente, um depósito da empresa que controla 45% do varejo online da Rússia, a Wildberries, foi um dos alvos.
A campanha ucraniana contra a logística e a produção de combustível refinado dos russos tem sido um dos tons da guerra neste ano.
A disrupção na distribuição de bens, usada pela classe média do país, e as filas por combustível arranharam a aprovação de Putin e o apoio ao conflito. Segundo publicou nesta terça o jornal Izvestia, apenas 28% dos postos do país têm diesel e gasolina, ante 41% uma semana antes.
As ações têm sido atribuídas ao sucesso recente de Zelenski em fomentar sua indústria de drones de longo alcance doméstica, mas também pelo início da produção de mísseis de cruzeiro Flamingo, que pode atingir alvos a até 3.000 km.
O problema para Kiev está nos relatos de que as defesas aéreas russas agora já derrubam a maior parte dos Flamingo em voo. Segundo a revista alemã Focus, Moscou emprega aviões-radar A-50 na tarefa de monitorar os mísseis.
Do lado da ofensiva, analistas ainda apontam para a chegada dos primeiros lotes de uma encomenda de 150 mil drones britânicos, em particular o modelo suicida movido a jato Nyan, da BAe Systems.
É um avião-robô de carga bélica reduzida e curto alcance, 20 kg e 250 km respectivamente, o que não alcança Moscou por exemplo, mas de difícil interceptação. Além dele, os ucranianos também compraram o drone de reconhecimento Ultra, da empresa Windracers.
Nesta terça, o chanceler russo, Serguei Lavrov, fez uma advertência a Londres, dizendo que haveria resposta pelo emprego tais drones contra solo russo. Foi uma reação a uma reportagem do jornal Sunday Times no domingo que relatava o primeiro emprego do Nyan contra a Rússia.
O governo britânico não confirmou nem negou o teor do texto, e nesta terça o Ministério da Defesa em Londres disse que seguiria fornecendo os equipamentos aos ucranianos.
Ao longo da guerra, esse tipo de ajuda sempre provocou controvérsia. No governo Joe Biden, os EUA proibiam o uso de armas ocidentais contra alvos dentro da Rússia, temendo uma escalada. Depois, flexibilizaram a regra, mas voltaram atrás. Já Donald Trump vetou o fornecimento de mísseis de cruzeiro Tomahawk a Kiev.
Ainda nesta terça, um drone atingiu um ponto de ônibus usado por funcionários da usina nuclear de Zaporíjia, ocupada pelos russos no sul da Ucrânia. Uma pessoa morreu e 15 ficaram feridas, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica. O incidente não afetou as instalações nucleares. A Rússia acusou Kiev pelo ataque.
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