Prefeita eleita ‘inquilina’ que fala turco assusta establishment em Berlim



BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) – “Sou inquilina, advogada e mãe. Conheço o medo que muitos berlinenses têm do próximo aumento do aluguel.” A propaganda eleitoral de Elif Eralp, provável futura prefeita de Berlim, só não era mais clara do que a palavra “Mietendeckel” que ostenta em um cordão dourado no pescoço: teto para aluguel.

Deu certo. O partido de Eralp, A Esquerda, foi o mais votado no último domingo (20), em um momento em que a Alemanha se digladia com o outro extremo do espectro político. No mesmo dia, a AfD conquistou a maior votação em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, sem, no entanto, alcançar uma maioria para governar.

Em Berlim, cidade-estado em que a função de prefeito se mescla com a de governador, A Esquerda também não alcançou a maioria, mas tem chances de montar uma coalizão de governo com partidos da centro-esquerda, os Verdes e o SPD. Isso se o medo do inquilino diante do locador superar o medo do capital diante da “desapropriação”.

Ou “expropriação”, como o primeiro-ministro, Friedrich Merz, chamou a principal bandeira da campanha de Eralp, prometendo inclusive uma legislação federal para combatê-la.

Largamente usados por opositores e por parte da imprensa alemã, os dois termos, no caso, são imprecisos. O certo seria “socialização”, exclusividade do direito alemão, que reconhece a função social da propriedade privada como motivo para tomá-la mediante indenização –uma categoria diferente da expropriação ou desapropriação.

É com essa figura jurídica que Eralp pretende estatizar mais de 200 mil apartamentos a um custo de EUR 7 bilhões (R$ 40,9 bilhões), segundo cálculos do partido, ou EUR 40 bilhões (R$ 235 bilhões), segundo o mercado. As ações da Vonovia, principal empresa do ramo, proprietária de 130 mil apartamentos na cidade, despencaram na última semana na Bolsa de Frankfurt.

Em 2021, um referendo nesse sentido recebeu apoio de 58% da população da capital, mas a proposta não avançou no Legislativo. Neste ano, moradia lidera a lista de “problemas urgentes” dos eleitores, duas vezes mais citada do que transporte, o segundo colocado.

Alguns números explicam a urgência: 85% dos domicílios berlinenses são alugados, mais do que Paris (61%), muito mais do que São Paulo (29%); o preço do metro quadrado disparou 78% em nove anos; a cidade precisa de 211 mil novos domicílios até 2040.

Apenas A Esquerda e os Verdes priorizaram o tema na campanha. A sigla de Eralp, versão atualizada do Partido Socialista, que por sua vez foi herdeiro político do SED (Partido Socialista Unificado da Alemanha), legenda única da Alemanha Oriental, conquistou 43% dos eleitores na faixa de 16 a 24 anos e 48% de 25 a 34 anos. Um voto jovem, feminino e urbano, o exato oposto do eleitor médio da AfD.

Um feito protagonizado por Eralp, 45, filha de socialistas que fugiram de um golpe de Estado na Turquia nos anos 1980. No discurso da vitória, agradeceu a um integrante da Anistia Internacional por salvar sua família de um abrigo de refugiados. “Fizemos história, amigos”, disse, em turco, idioma que usou em boa parte de sua campanha.

Nascida em Munique e criada em Hamburgo, Eralp é imigrante como os pais segundo a estatística do governo alemão. Estudou direito, fez estágio em um tribunal distrital e filiou-se à Esquerda em 2017, “no dia em que a AfD chegou ao Bundestag”, contou em entrevista.

Sua trajetória, frequentemente comparada à do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, foi pouco explorada nos últimos dias na imprensa alemã, mais ocupada com acusações de antissemitismo e até de uma propalada proximidade com o crime organizado.

A renovação do partido, que em um ano duplicou o número de filiados, atraiu uma miríade de movimentos de imigrantes, inclusive grupos pró-Palestina. Em mais de uma oportunidade, a própria Eralp classificou o governo de Israel de “extremista de direita”. Isso em um país em que a Lei Antissemitismo, desde 2024, deixa pouca margem para o contraditório.

Na sexta-feira (25), a parlamentar chamou de “alarmismo” as acusações. “Os judeus devem se sentir seguros em nossa cidade”, ponderou Eralp, reconhecendo como fonte de insegurança até algumas plataformas do partido.

Dias antes, uma das principais entidades judaicas do país chegou a pedir aos Verdes e ao SPD que não aderissem à coalizão proposta pela Esquerda para “evitar a crescente normalização do antissemitismo”. Pouco depois, 150 intelectuais judeus da cidade denunciaram em carta aberta o que viam como “instrumentalização” do termo por parte da própria comunidade e da imprensa “em um momento em que um partido assumidamente fascista está a caminho do poder em toda a Alemanha”.

Além das fortes votações da semana passada, a AfD alcançou no começo do mês a maior bancada em Saxônia-Anhalt. O partido negocia com a sigla nanica BSW para formar o primeiro governo de extrema direita na Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial.

Os serviços de segurança do país classificam a AfD como de extrema direita. Não fazem o mesmo, porém, com A Esquerda, ainda que alas e integrantes do partido sejam tratados como extremistas ou radicais.

Um parlamentar do partido, flagrado conversando com o crime organizado, foi afastado até segunda ordem. O chefe da facção, de origem libanesa, chegou a aparecer em uma festa da agremiação, no último fim de semana. “Quando reconhecido, foi convidado a se retirar”, disse Eralp, minimizando o ocorrido.

É sob esse tiroteio de informações que o partido iniciou negociações de coalizão com os Verdes e os sociais-democratas, que cobrarão limites ao radicalismo. Com o SPD, a discussão ainda terá que passar pela “socialização” de apartamentos como o de Eralp.

Inquilina, a provável futura prefeita mora em um apartamento alugado no bairro de Kreuzberg, com o marido e dois filhos. Foi eleita no próprio distrito fazendo campanha de porta em porta, falando a língua da maior comunidade turca fora da Turquia. Essa foi a parte fácil.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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