(FOLHAPRESS) – Em choque aberto com Donald Trump, o presidente Volodimir Zelenski recebeu nesta sexta-feira (16) apoio moral de líderes europeus durante encontro em Bruxelas, mas não muito mais do que isso.
Ao final de uma entrevista coletiva na qual expressou sua frustração com a guinada americana pró-Rússia no conflito, centrada em um acordo para compra de diesel de Vladimir Putin e na limitação do apoio tecnológico para se defender de ataques, Zelenski fez uma admissão tão óbvia quanto surpreendente.
“Essa é minha resposta”, disse, após um sorriso de cerca de 15 segundos, quando foi questionado se ele se via como um bode expiatório para os problemas domésticos de Trump, no caso, o acordo do diesel que visa baixar o preço do combustível nos EUA antes das eleições legislativas de novembro.
Ao longo da entrevista, ele agradeceu o apoio dos colegas europeus em um dos momentos mais críticos da guerra iniciada por Moscou em 2022. Mas afirmou que só os EUA podem ajudar com informações sobre lançamentos balísticos russos ou com sistemas eficazes de comunicação por satélite, a versão militar do Starlink, de Elon Musk.
Os anfitriões aquiesceram. “Infelizmente, a Europa não pode fornecer tal capacidade neste momento”, disse a chefe da diplomacia europeia, a estoniana Kaja Kallas.
Visivelmente frustrado, Zelenski disse que “apenas está tentando defender a existência do meu país”. Afirmou que a ajuda europeia deve garantir “o mínimo necessário” em termos de mísseis antiaéreos do sistema americano Patriot durante o inverno na região. A única boa notícia foi a promessa de receber mais caças F-16 usados da Bélgica no fim do ano.
A nova crise entre Washington e Kiev começou na semana passada, após diversas queixas de Trump acerca dos ataques às refinarias russas. Com a proximidade das eleições legislativas de novembro, o americano precisou arrumar uma justificativa externa para a inflação de combustível disparada por sua guerra no Irã.
Em julho, a Rússia suspendeu a exportação de derivados de petróleo, afetando inclusive o Brasil, grande comprador de seu diesel, devido ao desabastecimento doméstico.
Isso teve impacto no preço para o consumidor americano, mas os preços subiram, segundo especialistas, mais pelo recrudescimento da guerra entre a Arábia Saudita e os rebeldes houthis do Iêmen, um subproduto do conflito no Irã, e pelo fluxo ainda inconstante de petróleo pelo estreito de Hormuz.
Por óbvio, Trump quer dizer ao eleitor que o problema é Zelenski. Antes da guerra no Oriente Médio, o preço médio do galão (3,8 litros, padrão local) nos EUA era de US$ 3,9. Ele passou a flutuar em torno de US$ 5,6, caindo a US$ 4,5 em julho, para depois voltar a escalar com a confluência de fatores. Hoje, ronda os US$ 6,2.
Na semana passada, o republicano causou comoção na Europa ao voltar à sua posição pró-Rússia no conflito. Promoveu um acordo para comprar diesel de Putin, pediu a saída de Zelenski do poder e anunciou, sem combinar com os rivais, um cessar-fogo no setor energético.
Nesta semana, vieram os apagões na ajuda tecnológica a Kiev na guerra, com a falta de alguns avisos prévios, por informações de inteligência captadas por satélites e sensores, de ataques de mísseis e a limitação do serviço militar da rede Starlink, gerida pelas forças de Trump.
Enquanto a questão do compartilhamento de imagens de satélite e outros dados parece ter sido resolvida, ainda há relatos de instabilidade no Starshield, a versão para ações ofensivas do sistema.
Os russos seguiram bombardeando alvos energéticos na Ucrânia, mas Kiev não exporta diesel. Já Zelenski, após reclamar, disse aderir à trégua parcial, voltando seu foco para ataques a data centers russos. Após se dizer traído por Trump, voltou à carga contra refinarias na quinta-feira.
O americano queixou-se publicamente da volta aos ataques em uma entrevista ao canal direitista Newsmax, na noite de quinta-feira (15). “Ele só está fazendo aumentar o preço mundial do petróleo. Bom, eu acho isso uma vergonha”, afirmou, sobre os ataques.
Mais uma vez, Trump afirmou que é mais fácil dialogar com Putin do que com Zelenski, o que irritou o ucraniano. “A Rússia enviou mil drones ontem contra a Ucrânia e os EUA dizem que é difícil falar comigo”, afirmou na entrevista em Bruxelas.
Na Rússia, embora pessoas ligadas ao Kremlin tenham dito ao longo da semana à Folha que veem com cautela a proximidade de Trump agora, Putin está faturando com a crise.
Na noite de quinta-feira, pela primeira vez no conflito, a TV estatal divulgou imagens, em horário nobre, dos estragos causados por drones numa refinaria, em Riazan (sudeste de Moscou). Antes, tudo o que se via eram imagens captadas por moradores em redes sociais.
Mais importante, o cenário atual, se mantido, fornece ao russo argumentos para dizer que está vencendo o arrastado conflito do ponto de vista de uma meta estratégica: dividir o Ocidente.



