O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, pode ter sido sócio oculto de uma casa de apostas online? Essa é a suspeita levantada por documentos analisados pela Polícia Federal (PF) e revelados em uma reportagem publicada nesta terça-feira (20) pela revista piauí.
A investigação envolve a Best Bet, marca de apostas ligada ao advogado Willer Tomaz, amigo pessoal do senador, e duas empresas sediadas em Portugal. Flávio aparece como “usuário master” de uma conta bancária associada a uma das companhias.
A Polícia Federal encaminhou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar possíveis irregularidades, incluindo a suspeita de participação societária oculta.
Não há, porém, comprovação de que Flávio Bolsonaro seja proprietário da Best Bet. O senador e a defesa de Willer Tomaz negam qualquer relação financeira irregular entre os dois.
O que liga Flávio Bolsonaro à Best Bet?
A reportagem da piauí, assinada por Allan de Abreu, Breno Pires, Felícia Cabrita e Mário Gouveia, identificou vínculos entre duas empresas registradas na Ilha da Madeira, em Portugal: Cathedral Holdings e Alcazar Holdings.
A Cathedral foi criada em janeiro de 2023 pelo grupo empresarial de Willer Tomaz. No mês seguinte, passou a controlar a Rede Loto, empresa brasileira responsável pela marca Best Bet.
A casa de apostas obteve autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para explorar o setor.
Já a Alcazar foi constituída posteriormente e, segundo os documentos obtidos pela revista, possui conexões diretas com a Cathedral.
As duas empresas têm o mesmo proprietário formal, o mesmo administrador e funcionam no mesmo endereço, em Funchal, capital da Ilha da Madeira.
A investigação jornalística também identificou movimentações contábeis que podem indicar operações financeiras entre as companhias.
Um auditor fiscal português, que examinou os documentos a pedido da revista e pediu anonimato, afirmou:
“É possível que a Cathedral tenha financiado a Alcazar, total ou parcialmente.”
A conexão chamou a atenção dos investigadores porque Flávio Bolsonaro apareceu nos registros bancários da Alcazar.
Por que Flávio aparece como usuário master de uma conta?
Documentos encontrados pela Polícia Federal no material eletrônico de Willer Tomaz mostram que Flávio Bolsonaro estava cadastrado como “usuário master” de uma conta da Alcazar Holdings no banco Santander.
Esse tipo de cadastro permite, em determinadas condições, consultar saldos, visualizar movimentações, administrar permissões e autorizar operações bancárias.
Segundo a piauí, apenas duas pessoas apareciam como usuários master da conta: Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz.
O vínculo levou a PF a considerar a hipótese de que o senador pudesse ter participação econômica ou societária na empresa.
Em relatório citado pela imprensa, os investigadores afirmam que os documentos indicam uma relação de proximidade entre os dois.
“Durante as análises, foram identificados diversos elementos que evidenciam uma relação de proximidade entre Willer e Flávio Bolsonaro”, registra a Polícia Federal.
A corporação também identificou referências a encontros, viagens e documentos pessoais do senador armazenados nos arquivos eletrônicos do advogado.
O cadastro bancário, entretanto, não comprova por si só que Flávio fosse proprietário da Alcazar ou da Best Bet.
Flávio Bolsonaro nega participação nas empresas
O senador contesta as informações sobre seu envolvimento com as contas do advogado.
Ao ser questionado anteriormente sobre os registros bancários, Flávio declarou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
A piauí informou que procurou o candidato para perguntar se ele era sócio da Best Bet e se tinha acesso aos negócios da Cathedral Holdings, mas não recebeu respostas específicas a essas perguntas.
A reportagem também identificou um e-mail de 22 de maio de 2025 no qual uma funcionária de Willer Tomaz solicitou ao Santander a exclusão de Flávio Bolsonaro do cadastro de usuários master da Alcazar.
O documento não esclarece por que o nome do senador havia sido incluído nem o motivo de sua retirada.
O que diz a defesa de Willer Tomaz?
A defesa do advogado também rejeitou as suspeitas.
Em nota divulgada à imprensa, afirmou que todas as empresas e participações de Willer são regulares e declaradas às autoridades fiscais.
“Não há sócios ocultos, contas não declaradas, nem patrimônio escondido”, declarou.
Os advogados negaram ainda que Flávio Bolsonaro tivesse poderes sobre contas bancárias das empresas de Tomaz.
“O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer empresa do advogado”, afirmou a defesa.
A nota também sustenta que a Rede Loto, controlada pela Cathedral, nunca chegou a lançar uma operação de apostas.
Sobre a relação entre o senador e Willer, os representantes afirmaram que os dois mantêm uma amizade antiga entre suas famílias.
“A relação entre os dois é de antiga amizade entre famílias e amizade não pode ser criminalizada”, acrescentaram.
Empresa ligada à Best Bet pagou viagem de Flávio
Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores envolve viagens internacionais realizadas pelo senador.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, uma empresa ligada a Willer Tomaz pagou voos de Flávio Bolsonaro entre Portugal e França, em maio de 2025.
Os deslocamentos foram realizados em aeronaves executivas e incluíram uma viagem à cidade de Nice, no sul da França.
A piauí também identificou que o senador e o advogado estavam juntos em Portugal quando foi solicitado ao Santander o cancelamento do cadastro bancário de Flávio.
No dia seguinte, ambos viajaram com familiares para a França em um avião contratado em nome da Cathedral Holdings.
A defesa de Willer afirmou que as viagens foram pagas pessoalmente pelo advogado e que se tratava de passeios entre amigos e familiares, sem contrapartidas comerciais.
O que a Polícia Federal pretende investigar?
As informações reunidas pelos investigadores surgiram durante uma apuração sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz e empresas ligadas ao setor de apostas.
Em um relatório, a PF levantou a possibilidade de que contas controladas pelo advogado estivessem funcionando como “ponto de concentração, circulação e redistribuição de recursos em favor de terceiros”.
A documentação foi encaminhada ao STF, onde o ministro Alexandre de Moraes foi sorteado relator.
A defesa de Flávio, entretanto, contestou reportagens que afirmavam que um novo inquérito já havia sido formalmente aberto contra o senador.
“Os autos que chegaram à Corte sequer foram convertidos em inquérito, não houve manifestação da Procuradoria-Geral da República ou qualquer decisão judicial a respeito”, afirmou a assessoria do candidato em nota divulgada ao jornal O Estado de S. Paulo.
A defesa de Willer também questionou a divulgação de documentos sigilosos às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais.
“Causa muita estranheza que peças sigilosas, desconhecidas da própria defesa, sejam divulgadas de forma seletiva a seis dias do segundo turno”, afirmou.
Qual é a relação do caso com o desafio de Lula?
A revelação sobre a Best Bet ganhou repercussão durante a campanha presidencial, em meio ao desafio lançado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para que Flávio Bolsonaro autorize a abertura de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico.
Durante o debate da Band, no domingo (18), Lula propôs que ambos divulgassem seus dados financeiros e os de familiares.
“Eu desafio você, os Bolsonaro e eu, amanhã, abrirmos nossa conta bancária, abrirmos nosso sigilo para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão nesse país”, afirmou o presidente.
Flávio respondeu que não tinha nada a esconder, mas não confirmou se aceitaria a proposta.
Na terça-feira (20), Lula formalizou o pedido no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), incluindo informações de empresas vinculadas aos candidatos.
O requerimento foi distribuído ao ministro André Mendonça, responsável por analisar a solicitação.



