A Justiça do Ceará determinou o arquivamento da investigação contra João Munhoz Neto, de 34 anos, pelos crimes de feminicídio e induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio relacionados à morte da estudante de Direito Isabelle Caracristi, de 22 anos, em Fortaleza.
A decisão foi assinada na terça-feira (20) pelo juiz Wyrllenson Flavio Barbosa Soares, da 5ª Vara do Júri de Fortaleza, e divulgada nesta quinta-feira (22). O magistrado acolheu o parecer do Ministério Público do Ceará (MPCE), que apontou ausência de elementos suficientes para sustentar as acusações de crimes dolosos contra a vida.
O arquivamento, no entanto, não encerra todos os desdobramentos judiciais do caso. João Munhoz Neto continua respondendo por suspeitas de violência psicológica contra a mulher e fraude processual, crimes pelos quais foi indiciado pela Polícia Civil.
Por que a Justiça arquivou parte da investigação?
Na decisão, o juiz considerou que as provas reunidas durante o inquérito não ofereciam fundamento suficiente para o prosseguimento de uma investigação criminal por feminicídio ou indução ao suicídio.
“O conjunto probatório carreado aos autos demonstra a ausência de justa causa para a deflagração de persecução penal por crime doloso contra a vida”, afirmou o magistrado.
O Ministério Público já havia solicitado o arquivamento parcial após analisar os resultados da investigação conduzida pela Polícia Civil e pela Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce).
Segundo os órgãos responsáveis pela apuração, os elementos periciais indicaram que a morte de Isabelle ocorreu após uma queda voluntária do edifício onde estava.
O MPCE informou que adotou o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), na elaboração do parecer.
Com o arquivamento das suspeitas de crimes dolosos contra a vida, o juiz determinou a transferência dos autos para um dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza.
“Afastada a ocorrência de crimes dolosos contra a vida, cessa a competência constitucional deste Tribunal do Júri”, registrou na decisão.
Acusações ainda pesam contra o namorado
João Munhoz Neto permanece investigado por violência psicológica contra a mulher e fraude processual.
De acordo com a Polícia Civil, o relacionamento teria sido marcado por comportamentos de manipulação, humilhação, controle e isolamento da estudante.
Durante as investigações, os agentes também identificaram condutas posteriores à morte de Isabelle que fundamentaram o indiciamento por fraude processual.
Entre os episódios examinados estão a limpeza do apartamento e tentativas de comercialização do imóvel.
A Justiça decidiu manter as medidas cautelares impostas ao investigado, incluindo o monitoramento por tornozeleira eletrônica.
João chegou a ser preso preventivamente em 22 de setembro, mas deixou a prisão em 1º de outubro.
O processo continua tramitando em segredo de Justiça.
O que aconteceu com Isabelle Caracristi?
Isabelle foi encontrada morta em 13 de setembro de 2026, no pátio de um condomínio localizado no bairro Aldeota, em Fortaleza.
A jovem havia ido ao apartamento do namorado, situado no 15º andar do edifício. Imagens de câmeras de segurança registraram sua chegada ao prédio no fim da tarde.
Segundo a investigação, João deixou o condomínio por volta das 18h31.
Às 19h12, Isabelle apareceu sozinha em um elevador, seguindo em direção ao 23º andar, onde fica a cobertura.
A perícia estabeleceu que a morte ocorreu por volta das 20h40.
O namorado retornou ao edifício às 22h48, quando equipes da Perícia Forense já estavam no local.
A morte da estudante ganhou repercussão depois que sua mãe, Isorlanda Caracristi, divulgou relatos sobre o relacionamento da filha e cobrou esclarecimentos sobre as circunstâncias do ocorrido.
O que a perícia encontrou?
A investigação mobilizou equipes da Polícia Civil, da Delegacia de Defesa da Mulher e do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
Ao longo da apuração, foram ouvidas 29 pessoas, incluindo familiares, amigos, colegas de trabalho e funcionários do condomínio.
A Perícia Forense produziu 17 laudos, abrangendo exames de necropsia, análises toxicológicas, DNA, impressões digitais e avaliações de imagens e áudios.
Os investigadores também examinaram aproximadamente 700 vídeos obtidos de câmeras de segurança e outros dispositivos.
Segundo a Polícia Civil, o exame cadavérico não identificou sinais sugestivos de luta corporal, como marcas de estrangulamento, contenção ou escoriações no pescoço.
O inquérito foi encaminhado ao Poder Judiciário em 30 de setembro.
O que dizem as defesas?
A defesa de João Munhoz Neto recebeu a decisão de arquivamento como favorável à posição sustentada desde o início das investigações.
A advogada Lígia Peixe afirmou que a equipe jurídica continuará buscando demonstrar a inocência do cliente também em relação às acusações que permanecem sob análise.
“A decisão judicial confirma o arquivamento das acusações de feminicídio e induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio. A defesa seguirá trabalhando para demonstrar, com base nas provas e nos elementos técnicos, a inocência de João Munhoz Neto”, declarou.
O advogado Ravi Ramier também afirmou que a defesa continuará contestando as imputações remanescentes.
Já as advogadas da família de Isabelle haviam ressaltado, após a manifestação do Ministério Público, que o pedido de arquivamento dizia respeito aos crimes de competência do Tribunal do Júri.
“A manifestação ministerial enfatiza a prática inegável de violência psicológica e fraude processual, crimes que deverão ser apurados na esfera especializada”, afirmaram as representantes da família em nota divulgada anteriormente.
A apuração das acusações remanescentes ficará sob responsabilidade da Justiça especializada em violência doméstica e familiar contra a mulher.



