SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em queda firme nesta quinta-feira (30), com recuo de 0,91%, cotado a R$ 5,061. O movimento refletiu uma melhora no apetite por risco nos mercados globais e a divulgação de indicadores econômicos nos Estados Unidos, que aumentaram as expectativas de que o Fed (Federal Reserve, banco central norte-americano) possa adotar uma política monetária menos restritiva nos próximos meses.
Na máxima do dia, a moeda norte-americana atingiu R$ 5,106. Já na mínima, recuou a R$ 5,061. No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, fechou em queda de 0,93%.
Segundo Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a desvalorização da moeda americana refletiu, de um lado, a divulgação de dados mais fracos da economia dos EUA, como o crescimento de 1,5% do PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre, abaixo da expectativa de 2,1%, e um resultado mais moderado do PCE, indicador de inflação preferido do Fed.
O índice acumulou alta de 3,7% nos 12 meses encerrados em junho, acima da meta de 2% da autoridade monetária, mas registrou deflação de 0,1% na comparação com maio.
Segundo Juliana Benvenuto, coordenadora de alocação e inteligência da Avenue, o mercado reagiu negativamente não apenas à decisão do Fed de manutenção de juros entre 3,5% e 3,75%, mas também ao fato de o presidente da instituição, Kevin Warsh, ter evitado sinalizar os próximos passos da política monetária -o chamado forward guidance.
Diante desse cenário, Benvenuto afirma que bancos como J.P. Morgan e Bank of America passaram a considerar mais provável uma alta dos juros nas reuniões de setembro ou dezembro, contrariando a expectativa predominante antes da decisão.
Já Nicolas Gomes, especialista em câmbio da Manchester Investimentos, avalia que os indicadores econômicos divulgados nesta quinta-feira amenizaram parte desse movimento ao reforçar uma leitura mais “dovish” do mercado. Segundo ele, apesar de a decisão do Fed ter evidenciado divergências entre os dirigentes, com alguns votos favoráveis à alta dos juros, os dados aumentaram a percepção de que o banco central poderá manter a taxa ou iniciar um ciclo de cortes antes do que se esperava.
Além disso, segundo Rebecca Nossig, surgiram nesta quinta-feira suspeitas de intervenção do governo japonês no mercado de câmbio, com uma provável venda de dólares para conter a desvalorização do iene. Na avaliação da estrategista, o movimento ampliou a fraqueza da moeda americana e favoreceu divisas de países emergentes.
O Ibovespa encerrou o pregão com alta de 1,88%, aos 177.158 pontos. Segundo Marcos Vinícius Oliveira, economista da ZIIN Investimentos, o desempenho da Bolsa foi favorecido por indicadores econômicos domésticos.
Entre os destaques, está o IGP-M, que registrou deflação de 1,16% em julho, mais intensa do que a expectativa do mercado, de queda de 1,09%. Já a taxa de desemprego permaneceu em 5,4%, em linha com as projeções.
O real também foi favorecido pela queda dos preços do petróleo, após dias de alta provocada pelas tensões no Oriente Médio. Ao fim do pregão, o barril do petróleo Brent recuava 1,75%, cotado a US$ 89.
As bolsas americanas também foram impulsionadas pelos indicadores econômicos dos EUA divulgados nesta quinta-feira. O Dow Jones subiu 1,19%, o S&P 500 avançou 1,67% e o Nasdaq ganhou 2,78%.
Oliveira também destaca o desempenho do setor de tecnologia nos Estados Unidos. Segundo o economista, a Microsoft surpreendeu positivamente o mercado ao divulgar resultados acima das expectativas, impulsionados pelo crescimento da receita com computação em nuvem e pelos investimentos em inteligência artificial. A companhia informou receita de US$ 90 bilhões no segundo trimestre, alta de 18% em relação ao mesmo período do ano anterior e acima da projeção dos analistas, de US$ 87,7 bilhões.
Por outro lado, o especialista afirma que a Meta pressionou o setor após sinalizar um aumento relevante dos investimentos em inteligência artificial, o que pressionou as ações da companhia. “É um resumo de como o mercado está tratando a inteligência artificial agora. Ela premia quem já mostra retorno e pune quem só mostra gasto”, diz Juliana Benvenuto.
Na última quarta (29), o Fed manteve a taxa de juros na faixa de 3,5% a 3,75% pela quinta reunião consecutiva. Em entrevista após a decisão, Kevin Warsh, presidente do Fed, voltou a defender a meta de inflação de 2% e admitiu desconforto com os preços ainda elevados nos EUA. “Não existe uma meta implícita mais branda. Existe apenas uma meta, e ela é de 2%”, afirmou.
No entanto, Warsh não detalhou quais condições poderiam levar o banco central a voltar a elevar os juros e reiterou que as próximas decisões de política monetária continuarão sendo baseadas nos dados econômicos.
Como a inflação medida pelo PCE permanece acima da meta do Fed, o mercado ainda atribui uma probabilidade relevante de alta dos juros na reunião de setembro. Segundo o FedWatch, do CME Group, 63,2% dos investidores projetam que a taxa será elevada para a faixa de 3,75% a 4%, enquanto 36,8% esperam que os juros sejam mantidos no nível atual.
No Brasil, os investidores também seguem atentos à próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, marcada para os dias 4 e 5 de agosto, quando será definida a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,25% ao ano.
Na última terça-feira (28), o IBGE divulgou que o IPCA-15, considerado uma prévia da inflação oficial do país, desacelerou para 0,06% em julho, abaixo da expectativa do mercado, de 0,22%. Em 12 meses, o índice acumulou alta de 4,52%.
Para Rafael Rondinelli, economista da MAG Investimentos, o resultado “reforça a projeção de corte de juros pelo Copom na reunião da próxima semana”.
Caso o corte na Selic se confirme, cairá a atratividade da estratégia “carry trade” -em que investidores captam recursos em economias com taxas baixas, como a americana ou a japonesa, para aplicá-los em mercados com juros mais alto, caso do Brasil, se beneficiando dessa diferença.
No mercado de juros, os contratos futuros encerraram o dia com baixa nos vencimentos mais curtos e leve alta nos mais longos. O DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 fechou em 13,865%, com recuo de 0,07 ponto percentual. Já o contrato para janeiro de 2035 terminou o pregão em 14,645%, com alta de 0,01 ponto percentual.
Nos Estados Unidos, o rendimento da Treasury de dez anos recuou 0,04%, para 4,67%.
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