Luiz Carlos Barreto, um dos produtores mais importantes e longevos do cinema brasileiro, morreu na madrugada desta quarta-feira (22), no Rio de Janeiro, aos 98 anos. A morte foi confirmada pela filha dele, Paula Barreto.
Conhecido como Barretão, o cineasta estava internado no Hospital Copa Star. Havia dois anos e quatro meses, ele vivia com paraplegia após sofrer um acidente.
Ao longo de mais de sete décadas de atuação, Barreto participou da realização de mais de 70 filmes e ajudou a construir alguns dos capítulos centrais da cinematografia nacional. Sua trajetória está ligada a produções como “Vidas Secas”, “Terra em Transe”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Bye Bye Brasil”, “Memórias do Cárcere”, “O Quatrilho” e “O Que É Isso, Companheiro?”.
Nascido em Sobral, no Ceará, em 1928, Barreto costumava recordar que, naquele período, apenas três em cada dez crianças conseguiam completar o primeiro ano de vida. Dizia ter sido uma dessas sobreviventes, imagem que também usava para definir a persistência que marcou sua carreira.
Antes de chegar ao cinema, começou a trabalhar ainda adolescente no jornalismo. Atuou em O Democrata, publicação ligada ao Partido Comunista no Ceará, fechada em 1947 após a perda do registro legal da legenda.
Depois, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na revista O Cruzeiro, uma das publicações de maior circulação e influência no país naquele período. Tornou-se repórter e fotojornalista, trabalhando ao lado de profissionais como José Medeiros e Indalécio Vanderley.
Barreto considerava Medeiros um de seus mestres e admirava a maneira direta com que ele retratava a realidade. A experiência adquirida na fotografia jornalística seria fundamental para o trabalho que desenvolveria mais tarde no cinema.
Como correspondente na França, Barreto acompanhou produções cinematográficas e chegou a ingressar no Institut des Hautes Études Cinématographiques, o Idhec. Abandonou o curso poucos dias depois, incomodado com a ênfase dada à teoria. Preferia observar as equipes nos estúdios e acompanhar as filmagens, acesso facilitado por sua credencial de jornalista.
A entrada definitiva no cinema aconteceu após o retorno ao Brasil. Durante as filmagens de “Barravento”, aproximou-se de Glauber Rocha. O longa foi posteriormente montado em uma moviola instalada na casa de Barreto, com Nelson Pereira dos Santos responsável pelo trabalho.
Glauber Rocha também o indicou para colaborar no roteiro de “Assalto ao Trem Pagador”, dirigido por Roberto Farias, e insistiu para que assumisse a fotografia de “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos.
Barreto resistiu inicialmente ao convite. Argumentava que sua experiência era com fotografia jornalística, não com imagens em movimento. Glauber, no entanto, acreditava que o trabalho de um fotógrafo nordestino poderia renovar a forma como a região era mostrada nas telas.
Em “Vidas Secas”, Barreto dispensou os filtros tradicionalmente usados para suavizar a luminosidade intensa do Nordeste. A decisão produziu imagens com contrastes fortes e contribuiu para uma transformação na fotografia do cinema brasileiro.
Em 1963, fundou a produtora L.C. Barreto ao lado da mulher, Lucy Barreto, parceira profissional durante toda a vida. A empresa se tornaria uma das mais relevantes da indústria cinematográfica brasileira.
Barreto voltou a trabalhar com Glauber Rocha em “Terra em Transe”. A fotografia do filme também privilegiou a luz natural e exigiu atenção aos cenários para preservar a identidade de Eldorado, país fictício que servia como representação do Brasil.
A primeira produção integralmente comandada por ele foi “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, lançada em 1965 e dirigida por Roberto Santos. A partir daquele período, Barretão ampliou as parcerias com cineastas ligados ao Cinema Novo, entre eles Joaquim Pedro de Andrade, Carlos Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Walter Lima Jr. e o próprio Glauber Rocha.
O produtor também esteve envolvido em “O Padre e a Moça”, adaptação de um poema de Carlos Drummond de Andrade dirigida por Joaquim Pedro. Anos antes, o cineasta já havia participado do início da trajetória de Barreto no setor ao comandar “Garrincha, Alegria do Povo”.
Durante a ditadura militar, Barreto continuou trabalhando apesar das restrições impostas ao cinema e do exílio de alguns colaboradores. Foi coprodutor de “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” e “Terra em Transe”, ambos dirigidos por Glauber Rocha.
A consolidação como um dos principais produtores brasileiros ocorreu na década de 1970, período em que a Embrafilme assumiu papel central no financiamento e na distribuição dos filmes nacionais. A L.C. Barreto ganhou projeção, enquanto Barretão passou a atuar também nos bastidores políticos em defesa do setor.
Ele atribuía parte importante do crescimento da produtora a Lucy Barreto, que comandava diferentes projetos. Enquanto ela acompanhava a execução das obras, o marido mantinha contato com autoridades e defendia políticas públicas voltadas à cinematografia nacional.
A atuação política também lhe rendeu críticas. Adversários o acusavam de usar a influência em benefício dos próprios projetos. Ainda assim, sua presença foi decisiva nos debates sobre a Embrafilme e sobre a necessidade de fortalecer a produção brasileira.
Barreto defendia um cinema capaz de combinar qualidade artística e alcance popular. Para ele, as salas não deveriam abandonar à televisão o papel de comunicação com grandes públicos.
Essa visão orientou produções como “Como Era Gostoso o Meu Francês”, “Memórias do Cárcere”, “Inocência”, “Ele, o Boto”, “Menino do Rio” e “Bye Bye Brasil”.
O maior exemplo dessa proposta foi “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, dirigido por seu filho Bruno Barreto e lançado em 1976. Baseado no romance de Jorge Amado, o filme levou quase 11 milhões de pessoas aos cinemas brasileiros.
A produção recebeu indicações ao Bafta e ao Globo de Ouro, além de contribuir para a projeção internacional de Sonia Braga. Durante anos, permaneceu entre as maiores bilheterias da história do cinema nacional.
Com o fim da Embrafilme, no início da década de 1990, Barreto enfrentou as dificuldades provocadas pela redução drástica da produção brasileira. Voltou a ganhar destaque durante a Retomada, período marcado pela reconstrução do setor.
Dois filmes produzidos pela família Barreto representaram o Brasil na disputa pelo Oscar de melhor filme internacional: “O Quatrilho”, dirigido por Fábio Barreto e lançado em 1995, e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno Barreto.
Já no século 21, Luiz Carlos Barreto esteve à frente de “Lula, o Filho do Brasil”, dirigido por Fábio Barreto. A produção, lançada em 2009, retratava a infância e a juventude de Luiz Inácio Lula da Silva, com destaque para a relação do futuro presidente com a mãe, dona Lindu, interpretada por Gloria Pires.
O longa custou mais de R$ 17 milhões e levou cerca de 850 mil espectadores aos cinemas, resultado considerado abaixo das expectativas. A proximidade política entre Barreto e Lula provocou acusações de que a obra teria caráter oficial.
Para evitar questionamentos sobre interferência governamental, o produtor não utilizou patrocínio público. Mesmo assim, o financiamento de empresas ligadas a grandes obras do governo alimentou novas críticas.
A história apresentada no filme também guardava semelhanças com a vida do próprio produtor. Assim como Lula, Barreto deixou o Nordeste e construiu a trajetória profissional enfrentando limitações associadas à origem social e regional.
Entre sucessos comerciais, projetos premiados e produções que dividiram opiniões, Luiz Carlos Barreto manteve presença constante no cinema brasileiro. Sua obra atravessou o Cinema Novo, a Embrafilme, a crise dos anos 1990 e a retomada da produção nacional.
Barretão deixa uma filmografia que ajuda a contar a história cultural e política do país, além de um legado construído tanto nas telas quanto na defesa de uma indústria brasileira de cinema.



