SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Os ativos brasileiros voltaram a registrar um dia de forte volatilidade nesta quarta-feira (28). O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, despencou 2,67%, aos 171.006 pontos, ainda pressionado pelo movimento de correção após a vitória do presidente Lula (PT), reeleito para um quarto mandato. O resultado contrariou as expectativas de parte dos investidores, que apostavam na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL).
O dólar oscilou ao longo do dia e fechou em leve queda de 0,03%, cotado a R$ 5,346, com os investidores repercutindo a decisão do Fed (Federal Reserve, o banco central americano) de manter a taxa de juros dos Estados Unidos no intervalo entre 3,75% e 4%. A decisão também influenciou o desempenho da Bolsa nesta quarta-feira.
No mercado de juros futuros, os contratos com vencimentos mais curtos fecharam perto da estabilidade, enquanto os de prazos mais longos registraram alta, após o forte avanço observado na segunda-feira (26), primeiro pregão depois do segundo turno. A taxa dos contratos com vencimento em janeiro de 2028 ficou em 14,380%, com queda de 0,01%, enquanto a de janeiro de 2035 subiu 1,33%, a 15,105%.
Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, afirma que o movimento mostra que o mercado ainda tenta encontrar um novo patamar para os juros após a eleição.
“Ontem tivemos algum alívio, inclusive com atuação do Tesouro, mas hoje a curva volta a abrir principalmente do miolo para os vencimentos mais longos. A parte curta se movimenta bem menos, então a discussão neste momento parece estar muito mais ligada ao prêmio fiscal e às expectativas para os próximos anos do que a uma mudança imediata na trajetória da Selic”, diz.
Segundo Danilo, passada a reação inicial ao resultado eleitoral, o mercado começa a cobrar mais clareza sobre os próximos passos do governo. Entre os principais pontos de atenção estão a formação da equipe econômica, o Orçamento de 2027 e as medidas de ajuste fiscal que podem ser apresentadas ainda neste ano.
Nesta quarta-feira, também foi divulgado que a alíquota da CBS, tributo federal previsto na reforma tributária, poderá ser de 11,3% em 2027, segundo proposta apresentada pelo TCU (Tribunal de Contas da União) para manter a carga dos tributos federais sobre o consumo. O percentual ficou acima das projeções.
Franciny de Barros, sócia da área tributária do escritório Candido Martins Cukier, afirma que a divulgação de uma alíquota superior à esperada, a cerca de dois meses do início da cobrança, gera incertezas sobre o impacto nos orçamentos das empresas, inclusive daquelas que já haviam se preparado para a reforma.
“A alteração nas projeções compromete o planejamento financeiro e a segurança jurídica das empresas que já haviam avaliado os reflexos da transição”, afirma.
Cristina Camara, professora de direito tributário e financeiro da CEPED/UERJ, avalia que o impacto poderá ser significativo, especialmente para o setor de serviços, que tem menos possibilidades de aproveitar créditos.
O debate sobre alternativas de arrecadação também trouxe de volta a possibilidade de tributação de investimentos hoje isentos, como LCIs, LCAs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas.
Para Gustavo Danilo, a discussão sobre uma eventual cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre esses instrumentos acrescenta incertezas. Embora não considere o tema o principal responsável pela alta dos juros futuros, o especialista afirma que a possibilidade de mudanças aumenta as preocupações com a previsibilidade das regras, especialmente por envolver investimentos que financiam setores importantes da economia.
“Até existir um desenho mais claro, acaba sendo mais um elemento de incerteza”, afirma.
A RB Asset diz que caso o governo decida tributar esses investimentos, é importante que a cobrança siga as mesmas regras para todos os instrumentos, evitando distorções entre produtos bancários e aqueles do mercado de capitais.
Segundo a gestora, diferenças no tratamento tributário poderiam levar investidores a migrar recursos de um produto para outro apenas para obter vantagens fiscais.
Entre as principais quedas do Ibovespa nesta quarta-feira estavam as ações de grandes bancos, como o Santander, que divulgou seu balanço trimestral com queda de 28% no lucro em relação ao mesmo período do ano anterior e de 4,3% na comparação com o segundo trimestre de 2026.
Também recuaram os papéis do BTG Pactual, que caíram 6,52%, e do Bradesco, com baixa de 6,67%, além das ações do Banco do Brasil e do Itaú.
As ações de empresas mais sensíveis aos juros elevados, como Smart Fit, Fleury, Iguatemi e Axia, também encerraram o pregão em queda.
A desvalorização dessas companhias reflete o receio de que a manutenção de uma política de gastos elevados no governo Lula dificulte o controle da dívida pública e a redução dos juros.
No exterior, a decisão do Fed concentrou as atenções ao longo do dia. O banco central americano manteve a taxa de juros entre 3,75% e 4%, em uma decisão que contou com dez votos favoráveis e dois contrários.
Segundo Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue, a manutenção dos juros veio em linha com as expectativas do mercado. Agora, os investidores acompanham a comunicação do Fed em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária, já que o presidente da instituição, Kevin Warsh, tem evitado antecipar as decisões futuras.
As expectativas para a reunião de dezembro indicam uma probabilidade próxima de 80% de uma nova alta de juros, segundo Benati.
Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3, afirma que, como a manutenção dos juros já era esperada, as atenções se voltaram principalmente para o comunicado do Fed, em meio à recente escalada das tensões envolvendo os Estados Unidos.
Segundo a especialista, o agravamento do conflito tem pressionado os preços do petróleo, aumentando as preocupações com a inflação americana.
“Isso tem feito preço principalmente no petróleo, que traz a ponta de inflação para cima”, afirma.
Às 17h14, o petróleo Brent, referência mundial da commodity, estava em leve queda de 0,05%, cotado a US$ 113,95 por barril.
Em Wall Street, as Bolsas americanas fecharam o dia em alta. O Dow Jones avançou 0,19%, enquanto o S&P 500 subiu 0,28% e o Nasdaq registrou valorização de 0,27%.
Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) também encerraram o dia em alta. A taxa dos papéis com vencimento em dez anos subiu 0,54%, a 5,023% ao ano, enquanto a dos títulos de 30 anos avançou 0,73%, a 5,349% ao ano.
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