Dólar e Bolsa caem após corte da Selic e com balanços no radar



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar fechou em alta de 0,48% nesta quinta-feira (6), cotado a R$ 5,105, em um pregão marcado pela repercussão da decisão de juros do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central e pelos efeitos da temporada de balanços no setor corporativo.

No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, avançou 0,26%. O Ibovespa, por sua vez, encerrou o dia em queda de 1,22%, aos 175.546 pontos.

Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, afirma que o movimento contrário do dólar no Brasil em relação à tendência de valorização no exterior foi consequência da postura mais dura adotada pelo Banco Central brasileiro. “Ao sinalizar que os juros não devem cair em um ritmo acelerado, a autoridade monetária garante que a renda fixa local continuará pagando prêmios atrativos para o capital estrangeiro”, diz a especialista.

Na quarta-feira (5), o Copom reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo da Selic. A decisão já era amplamente esperada pelos economistas.

No comunicado divulgado após a decisão, o colegiado não antecipou os próximos passos da política monetária e voltou a afirmar que o tamanho total do ciclo de cortes será definido “à luz de novas informações”, diante dos riscos para a trajetória da inflação.

Entre os destaques que movimentaram a Bolsa nesta quinta estão o balanço do Bradesco, que registrou lucro líquido recorrente de R$ 7,1 bilhões no segundo trimestre, alta de 16,2% em relação ao mesmo período de 2025, e a expectativa pelos resultados da Petrobras, previstos para depois do fechamento do mercado.

As ações do Bradesco cairam 1,93%, cotadas a R$ 17,70. Ao longo do dia, os papéis da Smart Fit lideraram as perdas do Ibovespa, com queda de 7,82%, para R$ 18,38, após a divulgação, na véspera, de um balanço abaixo das expectativas do mercado.

As ações do Banco do Brasil também tiveram forte recuo nesta quinta-feira, caindo 3,65%, para R$ 20,28.

Segundo Ian Lopes, economista da Valor Investimentos, a queda das ações do Banco do Brasil em relação aos pares reflete uma sequência de resultados negativos da instituição, o que faz com que o mercado seja mais rigoroso com o papel.

Augusto Parente, sócio-fundador da AW Capital, afirma que, como o banco atravessa um momento mais delicado, o mercado já tenta precificar o resultado do segundo trimestre, que será divulgado no próximo dia 12. Os últimos balanços do banco foram fortemente impactados pelo aumento da inadimplência no agronegócio.

O lucro do Banco do Brasil no quarto trimestre de 2025 caiu 40% em relação ao mesmo período do ano anterior, para R$ 5,7 bilhões.

Parente também avalia que a queda da Bolsa nesta quinta-feira foi uma reação de curto prazo ao comunicado divulgado pelo Copom. Embora o corte de juros já estivesse precificado, o mercado interpretou o comunicado como mais duro e cauteloso. “O discurso mostrou preocupação com as inúmeras incertezas que envolvem o cenário econômico atual, seja doméstico ou internacional.”

Na avaliação de Matheus Nascimento, analista de crédito da Oby Capital, a temporada de balanços dos bancos tende a ser positiva, mas menos forte do que o mercado esperava.

“O Bradesco apresentou um resultado melhor, mas ainda com alguma pressão de inadimplência. O Banco Inter também divulgou números com alguma pressão relacionada à inadimplência. Já o principal fator para o Banco do Brasil continua sendo justamente esse aumento da inadimplência. Essa recuperação provavelmente ainda não deve aparecer no segundo trimestre.”

Nascimento destaca ainda que a BB Seguridade também apresentou resultados abaixo das expectativas. “A seguradora do grupo, que tem forte exposição ao agronegócio, reportou números um pouco piores na margem. Todo esse pano de fundo ajuda a explicar a queda de pouco mais de 3% das ações.”

Já em relação à decisão do Copom, Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, afirma que a combinação entre a postura cautelosa do BC, as incertezas em torno da inflação e os desdobramentos geopolíticos no Oriente Médio tende a manter o mercado em modo de espera, com investidores atentos tanto aos balanços corporativos quanto aos sinais globais sobre risco e política monetária.

Para Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, o comunicado do BC desta quarta foi mais claro do que o da reunião anterior e não deve gerar a mesma confusão observada na última decisão.

“Acredito que esse comunicado está mais amarrado. Sem forward guidance [ferramenta de política monetária em que um banco central comunica publicamente as suas intenções sobre os rumos futuros das taxas de juros], também acho que é um ponto importante, dado o nível de incertezas sobre o cenário básico.”.

Segundo Sung, o documento da decisão do BC também reforça que ainda há diversos riscos para a inflação, como a desancoragem das expectativas, o conflito no Oriente Médio e questões climáticas (como o El Niño) -que podem afetar os preços dos alimentos e medidas de incentivo à atividade econômica.
Em Wall Street, as principais bolsas fecharam o dia em queda. O S&P 500 e o Nasdaq recuara 0,29% e 0,06%, respectivamente, enquanto o Dow Jones registrou queda de 0,85%.

No cenário internacional, os investidores também seguem acompanhando os desdobramentos do conflito entre Estados Unidos e Irã.

O Irã e Omã propuseram um acordo para dar fim à guerra no Oriente Médio, mas ainda não houve comentário dos EUA sobre a proposta. Ao mesmo tempo, o Irã alertou os países do Golfo Pérsico de que qualquer novo ataque dos EUA ao seu território desencadearia retaliações contra infraestruturas energéticas essenciais em toda a região, segundo cinco fontes ouvidas pela Reuters.

Por volta de 17h10, o barril do petróleo Brent subia 4,34%, cotado a US$ 82,90.

Os juros futuros fecharam o dia em alta em quase todos os pontos da curva. O DI para janeiro de 2028 avançou para 13,870%, alta de 0,07 ponto percentual. Na ponta longa da curva, o DI para janeiro de 2035 subia para 14,470%, avanço de 0,15 ponto percentual.

Eduardo Amorim, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, afirma que a parte curta da curva de DI acompanha principalmente as expectativas para as próximas decisões do Copom. Atualmente, o mercado projeta juros próximos de 13,8% no início de 2027, indicando espaço limitado para novos cortes neste ano.

“Nos vencimentos mais longos, as taxas devem continuar mais voláteis e com prêmio elevado, refletindo as incertezas fiscais, o período eleitoral, o comportamento do câmbio e o cenário externo”, diz Amorim.

Segundo o especialista, a expectativa é de uma queda lenta dos juros de curto prazo, caso a inflação continue desacelerando, enquanto a parte longa da curva deve permanecer pressionada.

Nos Estados Unidos, o rendimento da Treasury de dez avançou 1,06%, para 4,66%.

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Fonte: Notícias ao Minuto

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