(FOLHAPRESS) – A alta do dólar após a reeleição do presidente Lula (PT) começa a impactar as cotações de commodities agrícolas como soja, milho, açúcar, trigo e café. Se, de um lado, o avanço da moeda americana pode ajudar o produtor, de outro, ameaça afetar o bolso do consumidor brasileiro.
Segundo analistas, a situação pode gerar repasses para os preços finais de parte dos alimentos, caso o câmbio siga pressionando as cotações. Soja e milho afetam a produção de carnes por servirem de base para a alimentação animal.
Na semana passada, após a vitória de Lula, o dólar acumulou alta de 9,2%. A moeda americana atingiu, na terça-feira (3), o maior nível desde dezembro de 2025, a R$ 5,486. O avanço diário foi de 0,7%.
Agentes do mercado financeiro têm manifestado preocupação com o rumo das contas públicas no quarto mandato de Lula. Nesta quarta-feira (4), o dólar teve alívio, com queda de 0,65%, cotado a R$ 5,45.
“Quanto mais tempo o dólar permanecer acima do pré-eleição, maior é a probabilidade de ter algum impacto nos preços”, diz o economista André Braz, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).
O Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) disse, na terça-feira, que a alta do dólar frente ao real aumentou a competitividade da soja brasileira no mercado internacional, estimulando o interesse de compradores estrangeiros.
Conforme a instituição, o movimento impulsionou os preços, que voltaram aos níveis do início de outubro.
Nesta quarta-feira, a saca de 60 kg de soja custava R$ 152,21 no Paraná, aponta indicador do Cepea. Isso representa uma alta de 3,8% ante o patamar de 23 de outubro (R$ 146,69), antes do segundo turno das eleições.
O centro também afirmou que as cotações do milho voltaram a subir, favorecidas pela valorização do dólar e pelo avanço dos preços nos portos.
A saca de 60 kg custava R$ 66,47 nesta quarta-feira, 3,4% a mais do que às vésperas do segundo turno (R$ 64,27). A região de referência dos dados é a de Campinas (SP).
“Teve algumas altas até bem expressivas de soja em grão e milho, porque os preços da maioria das commodities que a gente exporta são feitos de fora para dentro”, diz o analista Gabriel Viana, da consultoria Safras & Mercado, em referência ao impacto do câmbio.
ALÉM DO DÓLAR
Enquanto o dólar pressiona, outros fatores impedem um aumento mais intenso das cotações neste momento, segundo Viana. Um deles é o avanço do plantio da soja no Brasil.
O especialista afirma que o clima, até agora, tem permitido a semeadura na maioria das regiões, exceto em locais que sofrem com fortes chuvas na região Sul.
A questão é que a alta das temperaturas prevista com o fenômeno climático El Niño pode atrapalhar as lavouras mais à frente, pondera o analista.
Outro fator a ser observado é o comportamento dos preços do óleo diesel, uma vez que o combustível é um dos insumos utilizados na produção agrícola.
Com a alta do petróleo após o início da guerra no Irã, o governo passou a subsidiar os preços do diesel no Brasil. A subvenção ao combustível foi renovada por 30 dias na semana passada.
“Em caso de uma mudança na política da subvenção, a gente pode ter um aumento de preço do diesel muito agressivo justamente no momento de cuidados com a lavoura e talvez até no início de colheita”, diz o consultor.
AÇÚCAR E MILHO TAMBÉM SÃO IMPACTADOS
De acordo com o Cepea, o movimento de alta nas cotações do açúcar cristal no mercado à vista foi intensificado na última semana de outubro, após o segundo turno das eleições. A instituição associou o impulso à valorização do dólar.
Na semana de 26 a 30 de outubro, os preços do açúcar cristal branco no estado de São Paulo registraram média de R$ 128,57 por saca de 50 kg, aumento de 2,3% frente à semana anterior (R$ 125,63). Foi a 15ª alta semanal consecutiva, sequência de valorização mais longa desde 2020.
A saca de açúcar foi cotada a R$ 127,66 nesta quarta-feira. O valor é 1,8% superior ao de 23 de outubro (R$ 125,44).
Outro reflexo envolve o trigo, insumo usado na produção de alimentos como pães, massas e biscoitos.
Nesta quarta-feira, o Cepea afirmou que a oferta restrita do cereal de boa qualidade, devido a chuvas durante a colheita, está elevando as cotações. O cenário, conforme a instituição, foi reforçado pela alta do dólar na última semana de outubro.
O preço médio do trigo teve alta de 2,2% no mês passado no Rio Grande do Sul, indica o Cepea. O estado é o maior produtor do país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O Rio Grande do Sul também lidera a produção nacional de arroz. Nesta quarta-feira, o Cepea afirmou que o forte avanço do dólar na última semana de outubro voltou a colocar as exportações de arroz em casca no radar do mercado no estado.
Segundo o centro de estudos, a expectativa de retomada da demanda externa levou parte dos vendedores a adiar negócios, enquanto as indústrias seguiram limitando as compras, diante das vendas fracas e da dificuldade de repassar os preços da matéria-prima.
Em outubro, a média de preços calculada no Rio Grande do Sul foi a maior, em termos nominais, desde fevereiro de 2025, disse o Cepea.
DÓLAR ALTO SUSTENTA PREÇOS DO CAFÉ
Na semana passada, o centro afirmou que as cotações do café estão firmes no mercado nacional, impulsionadas pela valorização do dólar.
Conforme a instituição, o movimento cambial sustentou os preços domésticos, mesmo diante das quedas observadas no cenário internacional.
A saca de 60 kg do tipo robusta saía por R$ 972,99 nesta quarta-feira, 3,9% acima do patamar às vésperas do segundo turno (R$ 936,73).
Já o arábica custava R$ 1.600,77, nível similar ao registrado em 23 de outubro (R$ 1.601,95).



