Pesquisa revela Brasil cristão que crê em espíritos e não descarta reencarnação



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Algo que você dificilmente ouvirá numa igreja cristã: pregação sobre vidas passadas. Ainda assim, a fatia de brasileiros que acredita em reencarnação não é descartável: 37%. Ainda maior é a parcela dos que creem em espíritos, sejam eles bons ou maus: 68%. Isso num país onde 8 em cada 10 pessoas seguem uma das duas grandes correntes do cristianismo, a católica (50% do povo) e a evangélica (29%).

Essa aparente contradição talvez soasse estranha em outro país, mas vai de encontro à tendência histórica de sincretismo religioso no Brasil. Os dados, revelados por pesquisa feita em parceria por Iser (Instituto de Estudos da Religião) e Quaest, demonstram como o brasileiro pode transitar entre a identidade cristã e conceitos tidos como heréticos por suas religiões oficiais.

O levantamento foi realizado entre 14 de janeiro e 10 de fevereiro, com 15 mil entrevistados de 16 anos ou mais, em 412 municípios. A margem de erro geral é de um ponto percentual.

A maioria relata vivências intuitivas, com 73% afirmando que já tiveram o pressentimento de que algo ruim iria acontecer. O uso de folhas e ervas naturais para tratar a saúde conta com a adesão de 58%.

Superstições populares têm menos aderência. O costume de vestir roupa branca no Ano Novo para trazer paz é praticado por 36% das pessoas, enquanto fazer simpatias na virada do ano para atrair sorte é hábito de 15% dos entrevistados. Já o gesto de bater na madeira para evitar que algo ruim aconteça é adotado por 31%.

Espíritas e seguidores de religiões afrobrasileiras aderem em maior escala a tudo isso. Entre os cristãos clássicos, varia. A reencarnação é aceita por 2 em 10 evangélicos e 4 em 10 católicos. A porção nos dois blocos religiosos que declara crer em espíritos é a mesma, 68%, o que não necessariamente contradiz a doutrina cristã.

Não se fala apenas do pressuposto acolhido por outras fés: almas humanas que, sem carne e osso, podem ser contatadas por médiuns. “Você tem o Espírito Santo e tem os espíritos maus. Então, não é que a gente não acredite neles”, diz o pastor Pedro Barreto, da Comunidade Batista do Rio. Haveria nomenclatura melhor, segundo ele: “Existe o que a gente poderia chamar de anjos e demônios”.

Sobre a possibilidade de uma alma reencarnar num novo corpo, o pastor é taxativo: isso não. Ele explica sua visão religiosa com uma passagem da Epístola aos Hebreus: “Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disso, o juízo”. Não tem por que, então, vislumbrar algo diferente de “a gente viver a vida aqui na Terra e depois continuar vivendo no céu”, diz.

A certeza de que existe céu ou paraíso é compartilhada por 8 em 10 brasileiros. Concordam com a premissa 92% dos evangélicos. Mesmo entre quem relata não ter religião ela é pop: 64% a abraçam.

É sempre bom lembrar que esse grupo, 14% da amostra, não é sinônimo de ateu ou agnóstico (para quem não dá para provar nem que o divino existe, nem que inexiste). Mesmo sem uma crença formal, 88% dessa turma diz ter fé.

Essa convicção numa força divina norteia o cotidiano da ampla maioria. Praticamente toda a população (98%) acredita em Deus, e 73% dizem usar versículos bíblicos como forma de ensinamentos para a vida.

O medo do mal-olhado assombra 2 em cada 3 entrevistados, enquanto 47% creem em feitiço, o que não é incompatível com a fé cristã. Basta pensar na ideia de batalha espiritual trabalhada em igrejas como a Universal do Reino de Deus, que prega contra o que define como feitiçaria e amarrações, associando problemas financeiros, familiares ou de saúde a ações espirituais negativas.

MAPA DA RELIGIÃO

O levantamento também mapeia a cartografia religiosa do país.

Dá para dividir a metade católica do povo assim: 31% se dizem praticantes, 19%, não. O catolicismo é mais forte no Nordeste, sobretudo no Piauí, onde 73% professam essa fé. São também, em geral, pessoas mais velhas (65% dos brasileiros com 60 anos ou mais).

Já evangélicos têm maior concentração no Norte, com 4 em cada 10 locais, sendo Amazonas o estado mais crente (45%). A presença é forte também no Centro-Oeste (34%). Quanto mais jovem, maior a probabilidade de declarar essa religião. O mesmo vale para a população negra: 31% dos pretos e pardos são evangélicos, índice que cai para 26% considerando apenas os brancos.

As Assembleias de Deus abarcam 32% de todos os fiéis, que são em grande parte pentecostais: 7 em cada 10. Os chamados desigrejados, que não se filiam a um templo em particular, são 10%.

Para a antropóloga Lívia Reis, do Iser, a pesquisa cumpre um valioso papel sociológico ao organizar o pertencimento religioso em caixinhas, “principalmente se consideramos a religião como um marcador social que deve ser cruzado com outros para entender melhor o Brasil”.

O levantamento, contudo, “bagunça o seu próprio quadro classificatório” ao revelar uma fluidez da religiosidade nacional. “Tivemos casos, por exemplo, de uma pessoa autodeclarada católica praticante que frequentava uma Assembleia de Deus e acreditava em reencarnação, e quadros como esse são muito comuns quando falamos de Brasil.”

A assessora de comunicação Johanna Sinclair, 44, fiel de uma igreja batista em Campo Grande (MS), que o diga. Converteu-se evangélica em 2008, mas não exclui a hipótese da reencarnação. “Tenho muita dificuldade de abrir mão dessa ideia, talvez porque tenha sido criada nesse berço espírita, na verdade, sincrético, né? Colégio de freira, kardecismo, umbanda também.” Tanto que às vezes vai a um centro espírita tomar passe, conta. “Como boa brasileira, sou bem sincrética.”

A experiência é outra para a professora de matemática Thaís dos Santos, 33. Sua mãe se converteu quando Thaís era bebê, então foi uma vida toda como evangélica. Ela aponta não só impacto espiritual, mas também social da sua fé. “Mais do que discursos bonitos, é uma vivência real que alivia a alma. Vi famílias que estavam sendo destruídas sendo restauradas.”

Para ela, o mundo espiritual é real, e Jesus, “a fonte de água viva, quem bebe dela nunca mais terá sede”, diz Thaís, que frequenta em São Paulo o Ministério Apostólico Jesus para as Nações. “Quando ouvimos isso só como teoria, parece fanatismo. Mas se bebemos dessa água, entendemos o que é vida de verdade. Não dá para dizer que não gosta de abacaxi sem nunca ter provado. Se você nunca provou dessa vida, não sabe como é vivê-la de fato.”

São relatos que, para Lívia Reis, uma das coordenadoras da pesquisa, afastam a noção dessa maioria cristã como uma massa homogênea.

O medo de feitiço e a crença de 2 em cada 3 brasileiros em “demônio, diabo, inimigo, besta-fera ou seja qual for o nome dado a essa figura do mal” também chamam a atenção da antropóloga. “Eles nos ajudam a entender por que a ideia de batalha espiritual tem tanta adesão mesmo entre não pentecostais. Estamos falando de um conjunto de crenças que, historicamente, foi incorporado e compartilhado como um repertório cultural, não apenas religioso.”

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Fonte: Notícias ao Minuto

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